O que é Hike & Fly: subir a pé e descer voando
Entenda como surgiu o Hike & Fly, conheça a trajetória da modalidade no Brasil e veja o que considerar na preparação física, no equipamento e no planejamento antes de começar.

Hike & Fly é a combinação de caminhada em montanha com voo de parapente. O piloto carrega o equipamento na mochila, sobe até um ponto de decolagem e, se as condições permitirem, faz a descida voando. Em vez de depender de um carro para chegar à rampa, a própria trilha passa a fazer parte da experiência.
A proposta pode ser simples: caminhar até uma montanha próxima e fazer um voo local. Também pode envolver travessias mais longas, com vários trechos a pé e pelo ar, exigindo planejamento de rota, preparo físico e leitura das condições meteorológicas.
Nos últimos anos, o Hike & Fly ganhou espaço no Brasil, tanto entre praticantes que buscam combinar montanhismo e parapente quanto no calendário de competições. Mas, antes de colocar a vela na mochila e sair trilha acima, vale conhecer a modalidade e entender o que ela exige.
Como surgiu o Hike & Fly
A combinação de caminhada e voo acompanha a própria história do parapente. Em junho de 1978, na região de Mieussy, nos Alpes franceses, Jean-Claude Bétemps, André Bohn e Gérard Bosson realizaram voos experimentais a partir da encosta do Pertuiset, utilizando paraquedas adaptados para decolar correndo pela montanha.
A experiência ajudou a estabelecer as bases do que se tornaria o parapente. Naquela época, carregar o equipamento montanha acima não era uma modalidade independente: fazia parte da maneira de chegar ao ponto de decolagem.
Com a evolução das velas, das seletes e dos demais equipamentos, ficou mais fácil transportar o conjunto nas costas. O que antes podia ser apenas uma forma de chegar à rampa passou a ser também uma maneira de explorar montanhas, conectar diferentes pontos de voo e planejar percursos em que caminhar e voar são partes da mesma atividade.
O Red Bull X-Alps e a projeção internacional
Um dos acontecimentos que deram grande visibilidade ao Hike & Fly foi a criação do Red Bull X-Alps, cuja primeira edição aconteceu em 2003.
A competição reuniu 17 atletas que precisavam atravessar os Alpes, da Áustria até Mônaco, combinando deslocamentos a pé e voos de parapente. O suíço Kaspar Henny venceu a primeira edição, completando um percurso de aproximadamente 772 km em pouco menos de 13 dias.
O X-Alps ajudou a mostrar o potencial esportivo dessa combinação. A modalidade passou a reunir desafios que vão além da pilotagem: escolher a rota, interpretar a meteorologia, administrar o esforço físico e decidir quando vale a pena continuar caminhando ou tentar avançar pelo ar.
A competição também contribuiu para dar visibilidade à busca por equipamentos mais leves, adequados a longos deslocamentos. Hoje, há velas, seletes e mochilas desenvolvidas para quem precisa carregar o conjunto por trilhas e montanhas.
O Hike & Fly no Brasil
No Brasil, a modalidade ganhou espaço por meio de iniciativas independentes, encontros entre pilotos e competições regionais. Aos poucos, esses eventos passaram a integrar um calendário esportivo mais organizado.
Alguns marcos ajudam a entender essa trajetória.
Atibaia (SP): as primeiras competições
Em 2018, o X-Pedra colocou o Hike & Fly em evidência no cenário brasileiro ao combinar corrida em montanha e parapente, com pontos de passagem que podiam ser cumpridos a pé ou pelo ar, conforme o regulamento. A iniciativa tornou-se uma referência entre as primeiras competições organizadas no país.
Paraná: a modalidade ganha espaço
Em outubro de 2022, o Paraná recebeu sua primeira competição oficial de Hike & Fly. O percurso conectou o Morro da Palha, em Campo Magro, ao Morro do Cal, em Campo Largo, na região metropolitana de Curitiba.
A prova reuniu pilotos em diferentes categorias e mostrou que a modalidade podia ser praticada em percursos regionais, sem depender exclusivamente de grandes travessias internacionais.
Espírito Santo: a Transcapixaba
A Transcapixaba teve sua primeira edição em 2023 e avançou na organização esportiva em 2024, quando recebeu a chancela FAI 2, reconhecimento vinculado à Federação Aeronáutica Internacional (FAI).
A iniciativa contribuiu para aproximar o Hike & Fly brasileiro do circuito internacional de competições, com percursos que combinam deslocamentos por terra, voos e passagens por diferentes regiões do Espírito Santo.
2026: o primeiro Campeonato Brasileiro
Em setembro de 2026, Andradas, em Minas Gerais, recebeu o primeiro Campeonato Brasileiro de Hike & Fly, na região do Pico do Gavião. Gabriel “Gabe” Jansen conquistou o título, em uma competição que marcou uma nova etapa na organização nacional da modalidade.
Esses acontecimentos mostram como o Hike & Fly vem construindo seu espaço no Brasil: primeiro com iniciativas de praticantes, depois com provas regionais e, mais recentemente, com uma competição nacional.
Por que escolher o Hike & Fly?
Cada piloto tem suas próprias motivações, mas algumas características ajudam a explicar o interesse pela modalidade.
- A caminhada passa a fazer parte do voo. A montanha deixa de ser apenas o lugar de onde se decola. O percurso até lá também faz parte da experiência, exigindo ritmo, orientação e preparo físico.
- O voo ganha outra dimensão. Chegar a um ponto de decolagem por uma trilha permite conhecer o terreno de perto e observar como o relevo, o vento e as condições locais se relacionam. Isso não substitui a análise meteorológica, mas acrescenta uma dimensão diferente à experiência de montanha.
- É uma forma de combinar atividades ao ar livre. Para quem gosta de trilhas e já pratica parapente, o Hike & Fly reúne duas atividades em uma mesma jornada. A intensidade pode variar bastante conforme o desnível, a distância, o peso carregado e as condições do dia.
- Não exige necessariamente trocar todo o equipamento. É possível começar com caminhadas até rampas conhecidas, desde que o transporte seja viável e o equipamento esteja adequadamente acondicionado. Com a experiência, alguns pilotos optam por conjuntos mais leves, específicos para esse tipo de prática.
- Há espaço para desafios individuais e coletivos. Algumas pessoas praticam sem objetivo competitivo, apenas para caminhar e voar. Outras se interessam por travessias, percursos de longa distância e competições. O importante é ajustar o desafio à experiência de voo e ao preparo físico.
O que é preciso para começar?
O Hike & Fly não substitui a formação em parapente. A caminhada pode ser acessível a pessoas com diferentes níveis de condicionamento, mas a pilotagem exige conhecimento técnico, experiência e capacidade de tomar decisões sob condições variáveis.
1. Ter formação e experiência de voo
O primeiro passo é concluir a formação em uma escola de voo livre e adquirir experiência com orientação de instrutor habilitado. Antes de transportar o equipamento por trilhas, é importante conhecer bem os procedimentos de preparação, decolagem, voo e pouso.
Também é necessário saber reconhecer quando as condições não são adequadas para voar. Em Hike & Fly, a chegada à montanha não cria obrigação de decolar. O percurso pode terminar com a volta a pé.
2. Escolher o equipamento com critério
O peso e o volume do conjunto fazem diferença em uma caminhada longa. Alguns praticantes optam por velas, seletes e mochilas mais leves, mas a escolha precisa considerar a experiência do piloto, a faixa de peso, a certificação e as recomendações do fabricante.
Além do equipamento de voo, a mochila pode precisar de água, alimentação, proteção contra chuva e frio, protetor solar, celular carregado, meios de comunicação e itens básicos de primeiros socorros. A quantidade e o tipo de material dependem do percurso, da duração prevista e da possibilidade de retorno.
Reduzir peso não deve significar abrir mão de equipamentos essenciais de segurança.
3. Planejar o percurso
Antes de sair, confira a previsão meteorológica e as condições esperadas na região de decolagem e pouso. Considere o tempo necessário para a subida, a duração provável do voo e a possibilidade de retornar a pé.
Conheça a trilha, identifique alternativas de pouso e verifique se há restrições de acesso ou de voo. Avise alguém sobre o roteiro e o horário previsto de retorno. Em percursos remotos, planeje também como pedir ajuda caso ocorra algum imprevisto.
4. Respeitar o próprio ritmo
Não é necessário começar com uma travessia longa. Caminhadas curtas até pontos de decolagem conhecidos permitem avaliar como o corpo responde ao esforço e ao peso do equipamento.
A distância, o desnível e a carga devem aumentar gradualmente. Ter condicionamento para subir uma montanha não significa, por si só, estar preparado para todas as exigências do Hike & Fly: a atividade também requer atenção, coordenação e capacidade de tomar decisões depois do esforço.
Segurança: o voo começa antes da decolagem
A combinação de caminhada e voo exige atenção a fatores que podem passar despercebidos quando o foco está apenas em chegar ao cume.
- Cansaço: depois de uma subida exigente, faça uma pausa, hidrate-se e avalie como está se sentindo. Se o esforço comprometer sua atenção, coordenação ou capacidade de decisão, não decole.
- Equipamento: faça uma inspeção completa antes de voar. Durante a caminhada, linhas e tecidos podem prender em galhos, pedras ou vegetação. Confira a vela, as linhas, as conexões, a selete e o paraquedas de emergência, seguindo os procedimentos ensinados pelo instrutor e indicados pelo fabricante.
- Meteorologia: as condições podem mudar durante a subida. Vento forte, turbulência, atividade térmica intensa e mudanças na direção do vento podem tornar uma decolagem inadequada. A previsão deve ser combinada com a observação das condições reais, sem depender apenas da aparência do céu.
- Terreno: identifique obstáculos, áreas de turbulência associadas ao relevo e alternativas de pouso. A existência de uma rampa conhecida não garante que ela esteja adequada às condições daquele momento.
- Comunicação: sempre que possível, caminhe com companhia. Se estiver sozinho, informe seu roteiro a alguém, combine um horário de retorno e leve meios de comunicação compatíveis com a região. Em áreas sem sinal de celular, considere alternativas apropriadas para situações de emergência.
- Decisão de não voar: chegar ao cume não significa que seja necessário decolar. Voltar pela trilha pode ser a escolha mais adequada. Saber interromper o plano também faz parte da prática responsável do voo livre.
Saúde e preparo físico: o que considerar antes da primeira subida
No Hike & Fly, o corpo enfrenta duas exigências diferentes: o esforço de caminhar em terreno inclinado carregando peso e a necessidade de manter atenção e capacidade de decisão durante o voo.
Por isso, o acompanhamento médico vem antes da primeira subida. A Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte (SBMEE) e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) recomendam a avaliação pré-participação para todas as pessoas antes de iniciar uma atividade física ou esportiva. Procure um médico, de preferência um médico do esporte ou um cardiologista, e conte que você pretende fazer subidas com carga e voar. Repita a avaliação periodicamente, conforme a orientação recebida.
A avaliação ajuda a identificar fatores de risco e a orientar a prática de acordo com o histórico e as condições individuais. A necessidade de exames complementares deve ser definida conforme essa avaliação, e não por uma lista única aplicada a todos.
Alguns cuidados são especialmente relevantes:
- Desenvolva o condicionamento gradualmente. Caminhadas, exercícios aeróbicos e fortalecimento muscular podem ajudar na preparação para subidas e descidas.
- Preste atenção às articulações. As descidas a pé podem exigir bastante dos joelhos e tornozelos. Treinamento adequado, calçados apropriados e bastões de caminhada, quando bem utilizados, podem ajudar.
- Cuide da hidratação e da alimentação. O esforço prolongado aumenta a necessidade de água e energia. Planeje o que levar de acordo com o tempo e a intensidade do percurso.
- Considere o frio, o calor e a exposição solar. As condições na montanha podem ser diferentes das encontradas no início da trilha.
- Não ignore sintomas. Dor no peito, desmaio, tontura importante, palpitações ou falta de ar desproporcional ao esforço exigem interrupção da atividade e avaliação médica.
O objetivo não é alcançar um determinado desempenho físico a qualquer custo. É estar preparado para o percurso e conseguir reconhecer os próprios limites, inclusive quando isso significa adiar o voo.
Hike & Fly na Ibituruna
Em Governador Valadares, a região da Ibituruna oferece possibilidades de integração entre trilha e voo livre. Para quem já pratica parapente, conhecer os percursos locais pode ser uma maneira de explorar a montanha por outra perspectiva.
Uma das opções divulgadas pelo Ibituruna Hike & Fly é a trilha do Parque Natural ao Pico, com cerca de 7 km e mais de 900 m de subida até a rampa, segundo os registros de GPS da página de rotas. Antes de planejar a subida, consulte as informações atualizadas sobre acesso, condições do percurso e regras locais. A realização da trilha não garante condições adequadas para decolagem.
Se você já voa e quer conhecer melhor a região, acesse a página de rotas do Ibituruna Hike & Fly ou entre em contato com o clube para obter informações sobre os percursos e as condições de acesso.
O Hike & Fly combina esforço físico, conhecimento do terreno e decisões de voo. Começar por percursos compatíveis com sua experiência e respeitar as condições de cada dia são passos importantes para construir uma prática consistente.
Este conteúdo é informativo e não substitui a formação em parapente, a orientação de instrutores habilitados, as instruções dos fabricantes nem a avaliação individualizada de profissionais de saúde.
Fontes e leituras complementares
- Fédération Française de Parachutisme — História do parapente
- Cross Country Magazine — Red Bull X-Alps 2003
- Go Outside — Atibaia sedia a primeira competição de Hike & Fly no Brasil
- CBVL — Hike & Fly conquista espaço no Paraná
- CBVL — Transcapixaba recebe chancela FAI 2
- CBVL — Gabe Jansen é o primeiro campeão brasileiro de Hike & Fly
- SBMEE — Resumo sobre Avaliação Médica Pré-Participação